terça-feira, 1 de julho de 2014

Laririnto

Caminho por uma estrada curvilínea. Lá atrás, quando iniciava o percurso, nem imaginava como essa rota seria. Houve curvas. Passei pela chuva. Molhei os pés, os cabelos e encharquei o corpo e o coração de lágrimas. Depois descobri, na verdade, que caminhava dentro de um labirinto, em que as paredes que me confundiam também eram a redoma que me protegia.

Blindei-me de mim mesma e de outrem. Hermeticamente, me vi fechada dentro de uma bolha, repetindo o mesmo trajeto. Como posso eu ser o caminhante e a parede ao mesmo tempo? Quando foi que eu me permiti perder-me de mim mesma?

Seguramente, as respostas estão em curso. Pouco a pouco, vou tateando as paredes respectivamente de proteção e cárcere, buscando a luz do dia. Almejo o ar puro, a linha reta, ou até mesmo as curvas que levam a estradas lindas e a abismos. Quero ver o arco-íris e a noite brilhante. Vou me banhar na cachoeira mais caudalosa e caprichosamente desenhada que encontrar por aí. Eu vou.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Personas

Uma daquelas criaturas marinhas hermafroditas...
Seu sorriso é feio. Não propriamente a "organização", "ordenamento", "alinhamento" dos dentes, mas a abertura forçada da boca. Tudo em você, na verdade, é um pouco demais. É sociável demais, quieto demais, depois estridente demais. Sua terapia não dá resultado. E sua infantilidade transborda e pede a aprovação do mundo. Quer ser lembrado, virar busto, estátua, nome de rua...

Neurótico charmoso
Outro é tímido. Será um ícone da ficção, somente, ou uma persona inspirada nos moradores isolados e neuróticos das cidades melancólicas e cheias de contrastes? Síndrome do pânico, relacionamentos frustrados, depressão, Rivotril...tudo isso é parte do seu mundo e talvez do mundo de gente real. Muito louco!

Neurastenia e controladoria 
Ela é inteligente, um pouco indie, antenada...mas acho que é tudo superficial. Nem a própria sabe direito o que é. Pergunta-se a razão do afastamento alheio. Vejo que os fugitivos temem os tentáculos de polvo que ela lança sobre suas vidas. E fogem enquanto podem.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O que 2013 foi para mim

Final de ano é inevitável avaliarmos os fatos ocorridos ao longo de cada dia, semana ou mês de mais essa etapa da vida. É incrível como em pouco mais de 300, pouco menos de 400 dias, vivemos coisas que pareciam difíceis de conceber.

Essa pessoa que você vê no espelho hoje, se pudesse conversar com aquele que você era lá no passado, lhe daria notícias inacreditáveis.

Certamente nessa vivência você aprendeu muita coisa, sorriu, chorou, teve um casinho ou encontrou um amor, ganhou alguma coisa, deixou outras pelo caminho, sonhou com algo, aprendeu lições, esqueceu datas, fez amizades, cortou outras...enfim, não foi só mais uma fase...foi uma sucessão de acontecimentos decisivos na sua caminhada, assim como na minha.

O ano de 2013 foi extremamente desafiador e exigiu muita energia, pelo menos para mim. Consegui realizar alguns sonhos, alcancei metas, chorei e sorri muito.

Definitivamente, não foi um ano morno. Não teve água parada. O rio correu caudaloso para o mar e foi implacável ao derrubar barreiras, arrastar o que não funcionava mais e seguir em frente. Mas esse rio também celebrou a vida. E a tornou rica, cheia de novidades.

Essa correnteza já começou forte em meados do Carnaval. Enquanto os outros curtiam a folia, eu promovia minha reforma interna solo. Dali em diante, outras mudanças aconteceram, mas aquela, em especial, foi a mais brusca, dolorosa, e necessária.

Hoje, minha aparência mudou, minha formação acadêmica está ganhando um incremento, aprendi a dançar, fiz amigos queridos e verdadeiros, viajei para destinos lindos e vivi experiências inesquecíveis nesses lugares novos. Conheci gente autêntica, que diz o que pensa, sonha e realiza muitas obras.

Tenho somente a agradecer. Renovei a minha fé. Renasci para a vida e para o amor. Quebrei carapaças, joguei máscaras ao fogo. Permiti que novos sentimentos, pensamentos e pessoas se aproximassem. Por isso, foi tudo maravilhoso, mesmo com os percalços e as dores. Que venha 2014!!!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O silêncio

Tem silêncio bom e silêncio triste.

O bom é quando em meio a loucura do mundo a gente consegue encontrar uma ilha de paz.

É aquele distanciamento necessário que objetiva a concentração de energias para realização de algo maior.

É o descanso do falatório inútil, é se permitir um minuto de encontro verdadeiro consigo.

O triste é aquele que fere de morte. Faz manifestar a dúvida. Tira o sono. Abre espaço para conclusões mil. É o não saber.

Quisera não sofrer com esses vazios, os buracos negros e triângulos das bermudas da alma.

O outro é um continente pouco explorado. É o clichê da caixinha de surpresas, um arcabouço de histórias e visões de mundo, um universo sem fim.

Juntos, o outro e o silêncio formam um quadro abstrato, que guarda sentido somente em si.

Esse quadro fica lá exposto ao olhar público, mas se camufla num véu de vazio.

Não compartilha, não dá margem a interpretações, não conta nada sobre si.

Quem está em volta se esforça para decodificar o sentido da obra, sem sucesso.

Mil anos se passam, o ícone permanece, mas as versões mudam. E assim será...

sábado, 19 de outubro de 2013

Meu conto de fadas pessoal


Em suma, queremos o sumo do belo. A vontade (in)consciente de devorar o mundo, fagocitar as ideias, quebrar os paradigmas, virar tudo pelo avesso e começar de novo. Isso começa dentro, no âmago, no fundo do baú dos sonhos e devaneios. O vasto e infindável universo subjetivo que não podemos ver, nem tocar, que do tangível passa longe, mas é o responsável por transformar o incômodo em algo palpável e compreensível.

É o caos que aglutina o que foi lido, visto, sentido, ouvido, pensado. É a dor de refletir sobre o que é o existir que transforma simples melodias em sinfonias, frases sem sentido em obras memoráveis, um sorriso bobo na alegria mais que perfeita.

A saudade que mora no peito sem consolo, a espera pelo "olá" distante, o murmúrio feito ao ouvido sobre um futuro que ainda está sendo gerado...tudo isso é a síntese das torrentes de amor e desejo, "som e fúria", medo e força, o balanço dos cabelos, a beleza das lágrimas...

É a perfeição desordenada que todos vivenciamos diariamente em nossos pensamentos, lembranças, nostalgia. É a leitura feita em verso do banal. É a transposição do real para o ambiente de sonho. Aquele lugar que lembra a casa de doces de João e Maria, um reino encantado, um conto de fadas particular do qual não queremos sair jamais...

sábado, 20 de julho de 2013

A dança

Será que a sabedoria vem mesmo com o tempo? Eu não concordo absolutamente com isso, nem refuto amplamente essa ideia reinante. Minha impressão é que aprendemos algumas coisas com as passagens que vivemos e buscamos também, ao longo da vida, o autoconhecimento, mas temo que há certas feridas que não se fecham. Estão sempre por lá, para nos mostrar o quanto somos humanos, falíveis, suscetíveis ao triunfo e às quedas.

Quantas partes da nossa vida e de nós mesmos são negligenciadas, escondidas num quarto escuro de nossa mente, para evitarmos confrontos diretos com emoções doloridas? Que se manifeste quem nunca omitiu de si mesmo um fato complicado, uma decepção não "elaborada", um adeus não digerido! Inúmeras vezes, colocamos a armadura e o escudo, vamos à guerra, combatemos, ceifamos vidas e depois vestimos o traje mais delicado e de tecido nobre que temos e seguimos em frente. Fazemos isso sem analisar o que ocorreu, estancar o sangue até o final, limpar os ferimentos e aceitar, de coração, os fatos.

Somos preparados e cobrados para as vitórias. Afinal, a história só enaltece e preserva a memória dos vitoriosos, dos heróis. E os demais? Caem no esquecimento total, porque ninguém relata o que aparentemente não teve êxito. E o mesmo procedimento é aplicado aos pequenos fios que compõem a trama das vidas. Quão grande é o esforço que fazemos para aniquilá-los, esquecê-los? Desejamos ardentemente proclamar apenas os triunfos, alardear nossos métodos efetivos de alcançar o cume. E a caminhada para chegar até lá, não teve quedas? O que é feito delas?

Mesmo fugindo desses episódios difíceis, os ensinamentos que ainda não recebemos sempre são novamente colocados em pauta. Pode demorar um ano, dois, dez, mas é certo que de novo seremos chamados para o duelo ou a dança com o obstáculo não superado.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Nada de ser um personagem de si mesmo

Quem tem medo da exposição não usufrui a chance de aprender e de conhecer coisas novas. Em certas ocasiões nossos golpes são certeiros, mas há momentos em que nossas apostas não dão muito certo. O importante é não deixar tudo como está. O viver implica arriscar. Sair dos personagens que se cria para se esconder da vida para encarar os fatos, enfrentá-los de peito aberto e estar preparado para perder ou ganhar. Mesmo quando se perde, aprende-se. Nem que seja mais sobre nós mesmos. Entendemos nossos limites e tudo aquilo que nos faz bem ou não.

Nesse processo de se abrir e se permitir vivenciar o novo, nos defrontamos com pessoas, situações e ocorrências muito distintas entre si; embora, às vezes, voltemos aos mesmos erros para aprender a lição não captada. É só ter a sensibilidade de olhar e enxergar mais do que aparências. É preciso ter coragem para se lançar ao espaço sem saber aonde vamos chegar. E a graça da vida está nisso. Em se libertar das amarras e experimentar.

Posto isso, quando ficamos livres, rimos de nós mesmos. Tudo vale a pena, até mesmo o que hoje não aparente ser muito bom. É preciso ter alma para sentir, coração pulsante para viver tudo com intensidade e, no final, o que carregamos dentro de nós e toda a sabedoria acumulada é o que fazem a vida valer a pena.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Duas faces da mesma moeda

Yin e yang
Moeda lançada ao ar
Maniqueísmo?
Igual e diferente
Sol e chuva
Anuência e discordância

O mesmo bicho
Duas facetas
O olho de gelo
O olho de fogo (ou terra?)

O coração sente uma coisa
A cabeça, outra
A ação fica aqui
Enquanto o pensamento voa acolá

Posso acessar e dominar uma força
Enquanto a outra está perto e longe
Ah, as coincidências da vida
Os fatos mais despropositados e improváveis

Degelo o iceberg, um dia de cada vez
Hoje é água cristalina
Riacho, remanso
O incêndio consome parte de mim
Que não consegue lidar com ele, coexistir sem se machucar

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dizem que as lembranças são só nossas. Quem participou de uma dessas aventuras que insistem em martelar nossa mente lembra de tais situações de forma distinta e provavelmente mais vaga do que nós. É impressionante como os anos vão passando, exteriormente tudo muda - o mundo, nós, as pessoas que conhecemos - , e ainda assim existem tropeços, amores, infantilidades e alegrias que não saem dos pensamentos e do coração. 

É como um ser adormecido que acorda de tempos em tempos por causas desconhecidas. De repente, ele se espreguiça e fica lá ruminando, mostrando que "está na área", enfim demonstrando o quanto são inúteis as tentativas de apagar nosso passado.

Basta uma palavra, um som familiar (voz, música) e tudo está lá de novo: o que é bom e o que nos machucou. Quisera poder usar uma blindagem contra isso tudo e minimizar essa tristezinha que desponta às vezes. Quanto mais adultos ficamos, parece que nossos sentimentos e sonhos vão se tornando "desimportantes" (nem sei se isso existe).

A rotina, as regras, as obrigações, a falta de tempo para as coisas e pessoas de que gostamos vão nos tornando frios, duros e indiferentes. Sem as paixões insensatas da juventude vamos nos preocupando com o lado prático das coisas, deixando nossas fragilidades e desejos para trás. O mais engraçado é que não há como determinar um marco causador dessas transformações. Elas surgem e ponto.

Alguém inventa uma máquina do tempo, por favor? 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As marés

Em tempo de mídias cada vez mais velozes e superficiais, me veio uma vontade de escrever como se nunca houvesse escrito um tweet ou posto os olhos no FB. Quiçá voltar ao ano 2000 ou 2003, talvez 2005, e deixar brotar no meu coração um pouco da emoção de viver uma história sem saber o que sucederia no dia seguinte. Ainda havia poesia, romance no ar. Uma coisa meio doida, meio inconsequente, muito forte. Talvez o ato final da felicidade ingênua (com toques de malícia) da mocidade sem medo e sem culpa.

É bom saber que esses tempos existiram.