sábado, 27 de junho de 2015

A era da desconstrução: casamento gay e as faces do amor

Os livros de colorir nos dão a impressão falsa de que criamos algo genuinamente artístico e tiram nossa atenção da verdadeira cultura que vibra por aí. Em livre adaptação, com essas palavras o jornalista Zeca Camargo definiu o nosso processo atual de decodificar movimentos e ídolos que circulam em nosso meio. Decodificar um ídolo a mim soa como entender uma pessoa que se destaca das demais, identificar-se com ela, amá-la, desejá-la e admirá-la.

Engraçado, que nossa época parece mais propícia à desconstrução que ao surgimento de tendências. Essa semana o casamento gay foi aprovado nos EUA e esse fato causou muita comoção no Brasil. Em vários perfis no Facebook figuravam fotos estilizadas com as cores do arco-íris, símbolo máximo da luta pelos direitos dos homossexuais. E as pessoas proclamavam que essa decisão representava a vitória do amor.

Na mesma linha da desconstrução de mitos, ideias criadas, conceitos, hoje vi sendo assumido, também nas redes sociais, um relacionamento entre um colega de faculdade e uma funcionária da referida instituição. Não sei calcular exatamente a diferença de idade entre ambos - ela algumas décadas mais velha -, mas qualifico esse como um ato de coragem, nem tanto pela diferença de idade - que ainda posiciona-se como um tabu em nossa sociedade - mas pelos papeis de ambos na instituição. Aluno e funcionária, orientadora e orientando, ser experiente e aprendiz. 

Há dias, uma conhecida - moça muito bonita, cheia de sonhos e muito medo - envolveu-se com um rapaz comprometido, que, por sua vez, além de relacionar-se com ela, flertou com outra pessoa de seu convívio. A primeira moça citada perdeu o rumo, deixou-se abater, não se alimentava, precisou de antidepressivo. Tem preconceito contra o casamento gay, mas permitiu-se sonhar com um sujeito que já tinha alguém e abateu-se profundamente por perceber que seu sonho de mudá-lo, amá-lo e consertá-lo simplesmente foi abortado.

Ideias preconcebidas, ilusões, movimentos massificados, tudo isso merece análise um pouco mais acurada. Digo isso não porque acredite que existam regras invioláveis quando falamos em comportamento e que tudo deva ser regido pela razão. Pelo contrário: ouvir nossos sentimentos e conhecer nossos valores pessoais ampliam nossa sabedoria e nos permite transcender as crenças construídas e nos colocarmos no lugar do outro. Em síntese, para se adaptar às mudanças é preciso compreender mais e julgar menos. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Talvez

Talvez você seja só um chato daqueles que usam galocha por medo de molhar os pés.

Fiz piadas que você não entendeu e eu achei que tivesse me equivocado na forma como falei.

Você tinha tanta sede, mas quando teve acesso ao porte não pôde se fartar. E, ainda por cima, me deixou com fome.

Você foi um sanduíche barato acompanhado de batata frita murcha e salgada.

Acalmou o rombo do estômago, mas não substituiu um jantar robusto harmonizado com o vinho perfeito.

Você foi.

Foi um tiro no escuro, uma pedrinha no sapato, uma vela no blecaute.

O tiro saiu pela culatra, a pedrinha se perdeu no caminho e a chama da vela era insuficiente para iluminar meus passos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Temos todo o tempo do mundo?

Tudo caminha na superfície. Mas não é milagre, como na história crística em que o filho do Grande Arquiteto caminhou sobre as águas. É apenas o fluxo atual, no qual o corpo perfeito é mais atrativo do que os acontecimentos realmente importantes da vida.

Estamos na era do descartável, do substituível, em que tudo tem prazo de validade curto. Os "olás" e "adeuses" são tão próximos, que se confundem. Mal digerimos um e o outro já está acenando. Como conviver com isso, se por dentro não somos assim?

Se demoramos anos para digerir traumas, superar brigas, quebrar tabus e vencer desafios, como é possível, de um dia para o outro, termos que nos adaptar a mudanças tão repentinas sem nos abalar? Eu não entendo isso e acho que é tudo uma mentira descabida. Gente fake!!!!! Eu sinto, choro, penso, me incomodo, lamento, sorrio. Por que ninguém mais respeita os ciclos naturais? 

Uma criança precisa de  nove meses para ser formada, o ano é dividido em quatro estações, a água tem o tempo certo de ebulição, a produção fabril é parametrizada segundo altos padrões de qualidade...sendo assim, é mais do que lógico que tudo tem um tempo de maturação. E não dá para exigir que o embrião se comporte como um sábio. 


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Um novo olhar

Meu caminhar começou há algumas décadas. Primeiro, rastejei; posteriormente, adquiri coragem e me coloquei em pé; dos passos inseguros evoluí para as corridas; e aqui estou hoje a correr em busca de algo que ainda não sei direito o que é.

Tomo consciência da razão que me levou a escolher o nome do blog. Quem sibila é o meu coração, tentando assoprar baixinho para a minha mente a sabedoria necessária para trilhar o caminho da vida.

A lógica perde-se em seus argumentos tão bem construídos. No mundo das possibilidades, tendências e análises, o dia a dia se esvai sem que possamos olhá-lo com o deslumbramento que merece.

Vemos a vida pelas frestas da janela, quando poderíamos degustá-la completamente.

Quero sorver o néctar, sentir o perfume das rosas, ver meu cabelo voar livremente e acariciar meu rosto. Quero sentir o frescor da terra sob os meus pés; acarinhar um cãozinho livre; ver a águia alçar voo em direção à lua. Desejo dançar em volta da fogueira, em transe ritualístico, movendo a saia e as cadeiras, sem pensar no amanhã.

Que o hoje, o agora, este segundo sejam o tempo certo de viver o melhor da existência. Que meus olhos capturem sentimentos e não simplesmente imagens e dados.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Laririnto

Caminho por uma estrada curvilínea. Lá atrás, quando iniciava o percurso, nem imaginava como essa rota seria. Houve curvas. Passei pela chuva. Molhei os pés, os cabelos e encharquei o corpo e o coração de lágrimas. Depois descobri, na verdade, que caminhava dentro de um labirinto, em que as paredes que me confundiam também eram a redoma que me protegia.

Blindei-me de mim mesma e de outrem. Hermeticamente, me vi fechada dentro de uma bolha, repetindo o mesmo trajeto. Como posso eu ser o caminhante e a parede ao mesmo tempo? Quando foi que eu me permiti perder-me de mim mesma?

Seguramente, as respostas estão em curso. Pouco a pouco, vou tateando as paredes respectivamente de proteção e cárcere, buscando a luz do dia. Almejo o ar puro, a linha reta, ou até mesmo as curvas que levam a estradas lindas e a abismos. Quero ver o arco-íris e a noite brilhante. Vou me banhar na cachoeira mais caudalosa e caprichosamente desenhada que encontrar por aí. Eu vou.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Personas

Uma daquelas criaturas marinhas hermafroditas...
Seu sorriso é feio. Não propriamente a "organização", "ordenamento", "alinhamento" dos dentes, mas a abertura forçada da boca. Tudo em você, na verdade, é um pouco demais. É sociável demais, quieto demais, depois estridente demais. Sua terapia não dá resultado. E sua infantilidade transborda e pede a aprovação do mundo. Quer ser lembrado, virar busto, estátua, nome de rua...

Neurótico charmoso
Outro é tímido. Será um ícone da ficção, somente, ou uma persona inspirada nos moradores isolados e neuróticos das cidades melancólicas e cheias de contrastes? Síndrome do pânico, relacionamentos frustrados, depressão, Rivotril...tudo isso é parte do seu mundo e talvez do mundo de gente real. Muito louco!

Neurastenia e controladoria 
Ela é inteligente, um pouco indie, antenada...mas acho que é tudo superficial. Nem a própria sabe direito o que é. Pergunta-se a razão do afastamento alheio. Vejo que os fugitivos temem os tentáculos de polvo que ela lança sobre suas vidas. E fogem enquanto podem.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O que 2013 foi para mim

Final de ano é inevitável avaliarmos os fatos ocorridos ao longo de cada dia, semana ou mês de mais essa etapa da vida. É incrível como em pouco mais de 300, pouco menos de 400 dias, vivemos coisas que pareciam difíceis de conceber.

Essa pessoa que você vê no espelho hoje, se pudesse conversar com aquele que você era lá no passado, lhe daria notícias inacreditáveis.

Certamente nessa vivência você aprendeu muita coisa, sorriu, chorou, teve um casinho ou encontrou um amor, ganhou alguma coisa, deixou outras pelo caminho, sonhou com algo, aprendeu lições, esqueceu datas, fez amizades, cortou outras...enfim, não foi só mais uma fase...foi uma sucessão de acontecimentos decisivos na sua caminhada, assim como na minha.

O ano de 2013 foi extremamente desafiador e exigiu muita energia, pelo menos para mim. Consegui realizar alguns sonhos, alcancei metas, chorei e sorri muito.

Definitivamente, não foi um ano morno. Não teve água parada. O rio correu caudaloso para o mar e foi implacável ao derrubar barreiras, arrastar o que não funcionava mais e seguir em frente. Mas esse rio também celebrou a vida. E a tornou rica, cheia de novidades.

Essa correnteza já começou forte em meados do Carnaval. Enquanto os outros curtiam a folia, eu promovia minha reforma interna solo. Dali em diante, outras mudanças aconteceram, mas aquela, em especial, foi a mais brusca, dolorosa, e necessária.

Hoje, minha aparência mudou, minha formação acadêmica está ganhando um incremento, aprendi a dançar, fiz amigos queridos e verdadeiros, viajei para destinos lindos e vivi experiências inesquecíveis nesses lugares novos. Conheci gente autêntica, que diz o que pensa, sonha e realiza muitas obras.

Tenho somente a agradecer. Renovei a minha fé. Renasci para a vida e para o amor. Quebrei carapaças, joguei máscaras ao fogo. Permiti que novos sentimentos, pensamentos e pessoas se aproximassem. Por isso, foi tudo maravilhoso, mesmo com os percalços e as dores. Que venha 2014!!!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O silêncio

Tem silêncio bom e silêncio triste.

O bom é quando em meio a loucura do mundo a gente consegue encontrar uma ilha de paz.

É aquele distanciamento necessário que objetiva a concentração de energias para realização de algo maior.

É o descanso do falatório inútil, é se permitir um minuto de encontro verdadeiro consigo.

O triste é aquele que fere de morte. Faz manifestar a dúvida. Tira o sono. Abre espaço para conclusões mil. É o não saber.

Quisera não sofrer com esses vazios, os buracos negros e triângulos das bermudas da alma.

O outro é um continente pouco explorado. É o clichê da caixinha de surpresas, um arcabouço de histórias e visões de mundo, um universo sem fim.

Juntos, o outro e o silêncio formam um quadro abstrato, que guarda sentido somente em si.

Esse quadro fica lá exposto ao olhar público, mas se camufla num véu de vazio.

Não compartilha, não dá margem a interpretações, não conta nada sobre si.

Quem está em volta se esforça para decodificar o sentido da obra, sem sucesso.

Mil anos se passam, o ícone permanece, mas as versões mudam. E assim será...

sábado, 19 de outubro de 2013

Meu conto de fadas pessoal


Em suma, queremos o sumo do belo. A vontade (in)consciente de devorar o mundo, fagocitar as ideias, quebrar os paradigmas, virar tudo pelo avesso e começar de novo. Isso começa dentro, no âmago, no fundo do baú dos sonhos e devaneios. O vasto e infindável universo subjetivo que não podemos ver, nem tocar, que do tangível passa longe, mas é o responsável por transformar o incômodo em algo palpável e compreensível.

É o caos que aglutina o que foi lido, visto, sentido, ouvido, pensado. É a dor de refletir sobre o que é o existir que transforma simples melodias em sinfonias, frases sem sentido em obras memoráveis, um sorriso bobo na alegria mais que perfeita.

A saudade que mora no peito sem consolo, a espera pelo "olá" distante, o murmúrio feito ao ouvido sobre um futuro que ainda está sendo gerado...tudo isso é a síntese das torrentes de amor e desejo, "som e fúria", medo e força, o balanço dos cabelos, a beleza das lágrimas...

É a perfeição desordenada que todos vivenciamos diariamente em nossos pensamentos, lembranças, nostalgia. É a leitura feita em verso do banal. É a transposição do real para o ambiente de sonho. Aquele lugar que lembra a casa de doces de João e Maria, um reino encantado, um conto de fadas particular do qual não queremos sair jamais...

sábado, 20 de julho de 2013

A dança

Será que a sabedoria vem mesmo com o tempo? Eu não concordo absolutamente com isso, nem refuto amplamente essa ideia reinante. Minha impressão é que aprendemos algumas coisas com as passagens que vivemos e buscamos também, ao longo da vida, o autoconhecimento, mas temo que há certas feridas que não se fecham. Estão sempre por lá, para nos mostrar o quanto somos humanos, falíveis, suscetíveis ao triunfo e às quedas.

Quantas partes da nossa vida e de nós mesmos são negligenciadas, escondidas num quarto escuro de nossa mente, para evitarmos confrontos diretos com emoções doloridas? Que se manifeste quem nunca omitiu de si mesmo um fato complicado, uma decepção não "elaborada", um adeus não digerido! Inúmeras vezes, colocamos a armadura e o escudo, vamos à guerra, combatemos, ceifamos vidas e depois vestimos o traje mais delicado e de tecido nobre que temos e seguimos em frente. Fazemos isso sem analisar o que ocorreu, estancar o sangue até o final, limpar os ferimentos e aceitar, de coração, os fatos.

Somos preparados e cobrados para as vitórias. Afinal, a história só enaltece e preserva a memória dos vitoriosos, dos heróis. E os demais? Caem no esquecimento total, porque ninguém relata o que aparentemente não teve êxito. E o mesmo procedimento é aplicado aos pequenos fios que compõem a trama das vidas. Quão grande é o esforço que fazemos para aniquilá-los, esquecê-los? Desejamos ardentemente proclamar apenas os triunfos, alardear nossos métodos efetivos de alcançar o cume. E a caminhada para chegar até lá, não teve quedas? O que é feito delas?

Mesmo fugindo desses episódios difíceis, os ensinamentos que ainda não recebemos sempre são novamente colocados em pauta. Pode demorar um ano, dois, dez, mas é certo que de novo seremos chamados para o duelo ou a dança com o obstáculo não superado.